Autonomia Saudável através da Inteligência Biossistêmica

Consciência, autonomia, metacognição e a coragem de sustentar o não saber: como uma vida se constrói a partir de dentro, através dessa inteligência Sistêmica.

Olá!

Há um lugar de onde se pode falar que não é o do cientista no modelo positivista, preso à exigência de reduzir tudo ao mensurável e replicável, nem o da mística no modelo convencional, que muitas vezes dispensa o rigor conceitual em nome da revelação.

É o lugar de quem vive e pensa a própria vida, usando rigor sem se prender à redução, e usando profundidade sem abrir mão da precisão.

Chegar a esse lugar exige, antes de tudo, perder o medo da crítica e de errar através do reconhecimento simples de que a vida real não tem ensaio, cada contexto é único e contém elementos inesperados. E que é só a partir daí que se torna possível nomear algo que considero o maior e mais criativo potencial humano: a vida consciente a ser gerenciada a partir de dentro.

Acredito profundamente que o conhecimento cura. Por isso valorizo o conhecimento científico como o conhecemos hoje. Mas não esqueço daquele conhecimento mais amplo, que nasce da observação paciente da vida. Darwin era um naturalista que aprendeu observando. Muito do que a neurociência confirma hoje, a prática clínica, a sala de aula, já vinham mostrando há décadas, a quem se dispôs a olhar com atenção.

Consciência como o que se pode gerenciar

Prefiro tratar consciência não como um mistério insondável, mas como aquilo que podemos gerenciar. Metacognição, nessa definição, é a capacidade de autogestão dessa consciência. Ela não é uma capacidade que todos já possuem, latente e pronta. É uma conquista, um vir a ser, algo que se desenvolve através da prática consciente.

E uma parte central dessa conquista é treinar em si a capacidade de incluir o vazio como espaço de semeadura do novo. Isso é chave para expandir a consciência de forma criativa. Vale insistir numa distinção que costuma passar despercebida: muito do que se chama de expandir a consciência é, na verdade, apenas se aprofundar numa ideologia ou sistema de crenças de qualquer categoria.

Aprofundamento, nesse caso, é fechamento disfarçado de abertura.

O saber isolado como fonte de adoecimento

Quando o saber se fecha em si mesmo, desconectado da relação, da complexidade do contexto, ele adoece quem o sustenta. Isso aparece com clareza em profissionais de alta formação técnica que constroem a própria identidade em torno da autoridade do que sabem. Para essas pessoas, admitir o vazio desconfortante do não saber é quase uma ameaça de aniquilação da própria posição no mundo, e assim, a crença se torna rígida e impossibilita a gestão da própria plasticidade.

O contraste com isso não é a ausência de saber, mas outro tipo de saber, vivo e permeável, que se transforma continuamente na relação com o que não se sabe ainda.

Vale uma precisão aqui, porque a sistêmica não exclui nada: algum fechamento é necessário, é o que sustenta qualquer identidade, biológica ou não. O que adoece não é ter fronteira, é perder a permeabilidade dessa fronteira. Em linha com Maturana: sobrevive quem se adapta, inclui e se transforma sem se perder. O problema nunca foi o fechamento, mas o enrijecimento dele.

Autonomia e interdependência

Autonomia saudável não é independência isolada, o indivíduo autossuficiente e fechado sobre si mesmo. É autonomia que só existe em relação recíproca com o contexto, cooperando com ele, sendo continuamente transformada por ele enquanto o transforma.

É autonomia viva, criando e sendo criada, ocupando seu lugar a serviço de si mesma e da própria vida. O si mesmo, aqui, não é o fim último a ser afirmado ou defendido contra o mundo. É o lugar específico onde a vida acontece e se expressa. Nenhum polo dessa relação, nem o indivíduo, nem o contexto, é fundamento fixo e imóvel. Ambos se transformam no encontro.

Eu aprendi cedo, antes de compreender, a admirar a sabedoria dos poetas, Vinícius de Moraes disse bem: “a vida é a arte do encontro”.

Vida consciente como potencial criativo

A vida consciente, nesse sentido, não é um estado que se alcança uma vez e se mantém depois. É o próprio exercício contínuo desse potencial: cada vazio tolerado, cada pergunta viva sustentada, cada recusa em fechar prematuramente uma certeza é um ato criativo mínimo, mas real.

Não é um potencial que se possui e usa quando conveniente. É um potencial que só existe enquanto exercitado, a cada momento em que se escolhe não fechar o circuito.

A cultura da certeza costuma tratar essa forma de viver como fraqueza ou indecisão. É o contrário. Sustentar a incerteza sem se apressar para o binário de lutar ou se submeter, sem se refugiar numa ideologia pronta, sem depender de uma autoridade externa validando cada passo, é talvez o ato mais criativo e libertador disponível a um ser humano.

Porque é o único que mantém aberta a possibilidade do genuinamente novo. Hoje escrevi em meu Status: O que desejo para todos nós são primaveras. Uma vida que cria e é criada, ocupando seu próprio lugar com alegria, beleza e responsabilidade.

Um abraço,

Rosana Jotta

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