Durante muito tempo, organizamos a própria vida em torno de uma missão silenciosa: oferecer aos nossos pais aquilo nós mesmos acreditávamos que lhes faltou.
Olá!
Você já se encontrou neste lugar? Eu sim, e nem vou listar as coisas que desejei oferecer a eles pois pode ser para cada um de nós uma infinidade de coisas: estabilidade financeira, uma casa melhor, descanso, segurança, uma família mais unida, saúde e por ai vai…
Pode inclusive ser simplesmente, o desejo de vê-los felizes, vivendo em paz e harmonia.
Essa intenção quase sempre nasce de um lugar bonito: o amor incondicional de nossa primeira infância. Quando crianças, conhecemos o mundo a partir da família em que chegamos na vida, outros de nós de famílias adotivas.
Antes mesmo de compreender as circunstâncias com clareza, percebemos o que acontece ao nosso redor, sentimos falta do calor e dos sons do corpo de nossa mãe biológica. Notamos preocupações, ausências, dificuldades, conflitos, frustrações, perdas e sonhos que parecem não ter encontrado lugar.
Ao poucos, enquanto vamos nos desenvolvendo, não é necessário que nossos pais digam, embora muitos pais fazem isso, que precisam disso ou daquilo, pois de alguma forma percebemos inclusive as carências profundas de cada um deles sem também, como eles, saber nomeá-las.
É dessa forma que promessas surgem dentro de nós.
“Quando eu crescer, vou dar a eles o que não puderam ter.”
“Eu vou fazer diferente.”
“Eu vou resolver.”
“Eu vou compensar tudo o que sofreram.”
Aqui não se trata de dizer que vivemos a vida de nossos pais ou de procurar culpados pelo que nos tornamos. Justificar o que quer que tenha acontecido com o fato deles também serem filhos, e parte de uma história anterior a nossa também é pouco. Atende a nossas necessidades intelectuais mais deixa em aberta as feridas emocionais que carregamos.
O ponto é perceber que, ao conhecer o mundo naquela família, fomos construindo uma primeira ideia sobre quem precisávamos ser, nosso próprio valor. Uma identidade nossa construída em torno da deles.
Talvez você tenha se tornado responsável muito cedo, ou o contrário disso. Talvez tenha aprendido a trabalhar sem parar, a antecipar necessidades, a evitar conflitos ou a se sentir bem apenas quando está sendo útil. Desenvolvido uma grande capacidade de cuidar, organizar, estudar, empreender, resolver problemas e sustentar pessoas.
O problema não está em ter desejado oferecer ou provar algo a eles quando crescesse o suficiente para fazer isso. A questão para o adulto em nós, não está em você ter criado essa identidade mas no que ela se torna diante dos desafios de sua própria história pessoal.
Nesse lugar, nenhuma conquista parece suficiente.
Você trabalha mais, mas sente que ainda falta algo. Ajuda financeiramente, mas continua carregando culpa. Oferece presença, soluções e cuidado, mas permanece com a sensação de que deveria fazer mais. Porque a questão deixa de ser apenas ajudar: passa a ser tentar reparar, por meio da própria vida, uma dor que talvez seja maior do que aquilo que um filho pode resolver.
É que aqui já chegou a hora de você atualizar sua identidade para que ela possa incluir sua nova realidade.
Se me percebo ainda presa a meus pais de uma forma que me impede de ir além, por onde começar? Como resolver?
Um primeiro passo seria olhar para os pais de hoje, e não apenas para a imagem que construímos deles na infância. Perguntar: aquilo que eu acreditava faltar ainda falta? O que eu desejo oferecer continua sendo real, possível ou necessário? O que pertence à situação atual deles e o que pertence à interpretação que fiz quando era criança?
Talvez seus pais ainda tenham desafios. Talvez algumas dores permaneçam. Mas é importante reconhecer que a felicidade deles não depende exclusivamente de você. Eles têm uma história anterior à sua chegada, e somada a ela fizeram suas próprias escolhas sobre: relações, limites, desejos e caminhos que trouxeram consequências que são dele e não podem ser totalmente resolvidas por um filho.
Essa percepção não precisa produzir afastamento ou frieza. Ela pode produzir uma forma mais madura de amor e respeito pela trajetória de cada um deles.
A ideia é continuar presente como filho, sem assumir a responsabilidade por decisões, crenças e sentimentos que não lhe pertencem. Pode ajudar sem transformar a vida dos seus pais em um projeto possível para a sua. Pode amá-los sem acreditar que precisa garantir a felicidade deles para merecer viver a sua própria vida.
E existe algo ainda mais importante: os recursos que você desenvolveu nessa missão são seus. Reconhecer que as dificuldades deles geraram competências preciosas em você.
A responsabilidade que você aprendeu. A força que construiu. A capacidade de trabalhar, de criar, de cuidar, de persistir e de transformar dificuldades em ação. Tudo isso foi produzido ao longo desse caminho. Não precisa ser ignorado apenas porque o propósito inicial precisa ser revisto.
Começar de novo não significa dizer que tudo o que você fez pelos seus pais e pela sua família de origem foi um erro.
Muito pelo contrário!
Significa reconhecer que aquilo teve lugar em sua história. Produziu capacidades. Produziu experiência. Produziu quem você é. E justamente porque você respeita esse caminho, não precisa obrigá-lo a continuar para sempre.
Você pode retirar seus recursos da obrigação de servir exclusivamente à missão que os originou e colocá-los a serviço de novos propósitos.
Isso não é desistir dos seus pais.
É reconhecer que você também existe. E que pode começar de novo, não apagando sua história, mas caminhando com os recursos que ela já deixou em suas mãos. Que você conquistou!
O que acha disso?
Um abraço,
Rosana Jotta
Rosana Jotta é facilitadora em Condições de Contorno, Inteligência Sistêmica e Educação Biossistêmica com mais de 20 anos de experiência. Arquiteta de Contornos, Pedagoga (UFU), Consteladora Sistêmica com formação pelo IMAHOM e participação em seminário com Bert Hellinger e Pólo de Cuidado em Terapia Comunitária Integrativa pela ABRATECOM. Fundadora do Instituto Rosa da Terra, facilita processos de transformação para quem busca sair de padrões repetitivos e viver com mais consciência: clareza, leveza e sucesso. Conheça seus Treinamentos, Mentorias e Atendimentos em grupo ou individuais (presenciais ou online).