O Tóxico Como Caminho Para o Abusivo, e a Constelação Familiar

Olá!

Feliz ou infelizmente somos seres persistentes. Relações abusivas raramente começam no abuso mas resistimos a considerar os pequenos sinais. Essa talvez seja uma das verdades mais difíceis de reconhecer, e uma das mais importantes.

Então, a pergunta essencial seria, onde e como isso começou pra mim? Outro caminho seria: Qual o lugar que ocupo me sentindo indispensável a essa pessoa ou considerando que não tenha outras possibilidades na vida?

Sempre digo que nada surge do nada. Ao longo da vida, de nossa formação, tornamos normais coisas e situações com as quais convivemos, por mais difíceis e dolorosas que sejam ou tenham sido.

Hoje sabemos que esse “habituar-se” é parte de nosso funcionamento biológico e não apenas um “defeito pessoal”. O que, mais tarde, se torna evidente como violência, controle ou desrespeito profundo, quase sempre teve início em algo mais sutil e contínuo, com o qual fomos nos familiarizando.

Pequenos desconfortos. Sinais que pareciam insignificantes. Ajustes feitos em silêncio para manter o vínculo e a paz possível.

Na linguagem da Constelação Familiar, não estamos olhando apenas para comportamentos isolados, individuais, mas para a qualidade do campo de informações das famílias envolvidas, a qualidade das comunicações, das trocas que se estabelecem entre os adultos e incluem as crianças.

Aqui, estamos falando também sobre os modelos sócioculturais nos quais estão inseridos essas famílias, esses ambientes educacionais e religiosos que dignificam o autosacrifício sem limites e o drama emocional.

Campos de informação tóxicos têm características muito específicas: Eles reduzem a clareza, geram competições, comparações e julgamentos severos e nocivos focados em crenças generalistas sobre o bem e o mal.

Essas crenças profundamente arraigadas em nossa cultura distorcem a nossa percepção sobre o lugar de cada indivíduo enquanto pessoa comum, igualmente passível de erros e acertos.

Enfraquecem, de forma progressiva, a capacidade de alguém sustentar a própria referência interna, a percepção das próprias responsabilidades e competências, respeitando as do outro de uma forma recíproca e equilibrada.

O que o Corpo carrega para além de qualquer crença?

Brené Brown, que passou duas décadas pesquisando a vergonha na Universidade de Houston, chegou a uma distinção que parece simples e tem consequências profundas nessa nossa conviersa.

Culpa é “eu fiz algo errado.” Vergonha é “eu sou errado.”

Culpa foca no comportamento, e em sua forma funcional pode motivar reparação, mudança, responsabilidade. É um sinal que aponta para algo concreto, e some depois que a reparação acontece.

Vergonha foca na identidade. Paralisa o indivíduo e é altamente correlacionada com adição, depressão, violência, bullying e transtornos alimentares. Ela nos diz que vergonha e adição são tão emaranhadas que nem sabemos qual veio primeiro.

Para Brené Brown, a adição faz parte de um fenômeno mais amplo que ela chama de anestesiamento (numbing): as estratégias que usamos para não sentir o desconforto da vulnerabilidade, da vergonha, do medo e da desconexão.

Ela descreve a adição como a forma crônica e compulsiva de anestesiar e de “aliviar o fio” (take the edge off) de sentimentos que parecem insuportáveis. Não se limita a álcool ou drogas: também comida, trabalho, compras, celular, ocupação constante. O que define a adição não é a substância. É a função, o desejo de não sentir.

O que vejo em meu dia a dia de trabalho é o mesmo que ela aponta: não é possível anestesiar seletivamente as emoções. Quem anestesia a dor, a vergonha e o medo anestesia também a alegria, a gratidão e o pertencimento.

Por isso o preço do anestesiamento é alto: a pessoa se protege do sofrimento e, sem perceber, perde a capacidade de viver plenamente o que é bom.

O que Brown revela é precioso, e tem um limite preciso: ela trabalha com o que as pessoas conseguem nomear sobre si mesmas.

Com as crenças e significados socioculturais que a pessoa internalizou e consegue, com apoio, trazer à consciência. Mas no trabalho com as Constelações Sistêmicas incluímos o corpo biológico e vemos algo mais.

Vemos o que opera abaixo dessas crenças e trabalhos importantes como os de Brown não alcançam. E é exatamente aí que o campo tóxico atua com mais força, na formação de nossa identidade desde a mais tenra infância.

Para Brown, a vergonha é a experiência intensamente dolorosa de acreditar que somos falhos e, por isso, indignos de amor e pertencimento. Nas constelações vemos inclusive como esses registros nos chegam também através de memórias ou narrativas.

Quando esse sentimento se torna crônico, deixa de ser só uma ideia sobre si mesmo ou sobre o outro. O corpo de quem vive envergonhado se organiza em torno da ameaça de exclusão: o olhar que baixa, os ombros que se fecham ou se tronam arrogantes, a voz que grita ou diminui.

Stephen Porges descreve como o sistema nervoso, diante de ameaça, abandona os circuitos do engajamento social e entra em defesa. E Barrett lembra o custo disso: um corpo em alerta constante gasta energia em prontidão, e sobra pouco recurso para aprender, criar ou se relacionar de forma amorosa e confiante.

É aqui que Brown e Barrett se complementam. Brown mostra o que a cultura ensinou a pessoa a acreditar sobre si mesma, e como essa crença aparece na consciência. Barrett mostra o que o corpo carrega e prevê antes que essa crença seja formulada.

Mudar a crença, sozinha, raramente muda o que o corpo carrega. Para Barrett, o cérebro atualiza as suas previsões a partir de experiências, não apenas de informações. Por isso trabalhar apenas com significados e narrativas tem limite: a pessoa entende, concorda, e o corpo continua prevendo o mesmo.

Como isso se propaga nas relações

Elaine Hatfield, pesquisadora da Universidade do Havaí, documentou o que chamou de contágio emocional primitivo: a tendência automática de mimetizar e sincronizar expressões faciais, vozes, posturas e movimentos com os de outra pessoa, e de convergir emocionalmente com ela. Esse processo é pré-consciente. Acontece antes de qualquer decisão e de qualquer discurso.

Barrett e Porges chegam a algo semelhante por outros caminhos. Os sistemas nervosos leem continuamente os sinais de segurança ou de ameaça uns dos outros, e os cérebros regulam o orçamento corporal uns dos outros. A vergonha e a culpa, portanto, não são apenas estados internos. Circulam nas relações, de corpo para corpo, sem precisar de palavras.

É plausível, embora ainda não haja pesquisas específicas, que as emoções e crenças adotadas de outras pessoas, que vemos nas Constelações, tenham essa base concreta.

E onde a ancestralidade entra nisso?

As pesquisas de Rachel Yehuda sobre descendentes de pessoas que viveram traumas extremos sugerem também que experiências intensas podem deixar marcas biológicas em gerações que não viveram o evento diretamente.

É um campo ainda em desenvolvimento, que pede cautela nas conclusões. Mas converge com o que observamos há décadas na prática das Constelações.

Bert Hellinger percebeu, de forma fenomenológica, que o que não foi elaborado por uma geração não desaparece. Continua atuando nos padrões de resposta, nos vínculos, no que a geração seguinte reconhece como seu sem saber que também é herdado.

Numa Constelação, o que se mostra não é a família distante: é o cliente presente na relação com a sua família, aqui e agora, com tudo o que o seu corpo carrega dessa história.

A culpa crônica que alguém carrega, muitas vezes, não começou nela. É uma carga emocional transmitida ao longo do tempo, internalizada no corpo, que o contexto ao redor ativa e amplifica.

O que a Inteligência Biossistêmica nos oferece

É aqui que a Inteligência Biossistêmica oferece o que nenhuma abordagem baseada apenas em narrativa ou crença alcança.

Ninguém muda ninguém, nos lembra Maturana: o que podemos fazer é oferecer perturbações, condições de contorno, para que cada pessoa, a partir da própria estrutura, encontre uma configuração mais coerente com o fluxo saudável da vida.

Segurança, pertencimento, um lugar reconhecido. E, com recurso disponível, o corpo responde antes que a mente entenda o que aconteceu.

A Inteligência Biossistêmica não exclui nenhuma dessas leituras, através de uma constelação ela vê cada uma dessas camadas operando simultaneamente no fenômeno complexo que chamamos de VIDA.

Brown no lugar dela, mostrando o que a consciência pode nomear e transformar.

Hatfield no lugar dela, demonstrando como esse campo se propaga biologicamente nas relações.

Yehuda no lugar dela, revelando como essa frequência atravessa gerações no próprio corpo.

Cada um deles revelando uma camada que os outros não alcançam sozinhos. Nenhum excluído. Cada um essencial na compreensão da visão do conjunto.

E o que a Inteligência Biossistêmica oferece, além de qualquer um deles isoladamente, é o desenvolvimento dessa capacidade de colocar cada coisa no lugar que lhe pertence. De visualizar o conjunto. De intervir no ponto onde uma pequena mudança produz movimento real em todo o sistema.

De buscar e encontrar uma coerência, pois quando o campo encontra coerência, o corpo sabe antes que a mente entenda e, dessa forma algo acontece na estrutura do sistema, no como a vida funciona em suas camadas mais profundas.

Um exercício de compreensão e busca de clareza

Clareza sobre como relações se constroem. Clareza sobre como campos se organizam. E, principalmente, clareza sobre como, muitas vezes, permanecemos em dinâmicas que já não sustentam a vida, não por escolha consciente, mas por não conseguirmos mais ver com nitidez o que está acontecendo.

E aqui defendemos que essa mudança de percepção é, muitas vezes, o primeiro movimento real de transformação.

Digo aos meus alunos e clientes: agora é a sua hora no palco, e você pode escolher como agir de forma consciente, apesar de…

Um abraço,

Rosana Jotta

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