Há anos observo algo que parecia, à primeira vista, quase absurdo: tudo o que criamos, sem exceção, tende a ganhar algum tipo de vida própria. Uma ideia nasce para resolver algo específico e, em algum momento, se desloca daquela função original. Ela deixa de servir a uma necessidade e passa a existir por si só, dentro de nós, quase como se nos possuísse.
Foi pensando nesse fenômeno que cheguei a uma distinção que considero central para qualquer processo real de desenvolvimento pessoal: a diferença entre a pergunta certa e a pergunta viva.
O hábito se defende sozinho, surge sem pedir licença
Quando um pensamento ansioso se instala, é comum tentarmos duas estratégias opostas. Uma é validá-lo, buscar justificativas que provem que fazemos bem em nos preocupar. A outra é combatê-lo, desqualificá-lo, tentar vencê-lo pela força de vontade, excluir.
A observação importante aqui é que essas duas estratégias, embora pareçam opostas, produzem o mesmo efeito. Validar ou desqualificar são, estruturalmente, o mesmo movimento: ambos mantêm nossa atenção presa ao conteúdo, alimentando o circuito que já estava ativo.
E lutar contra um pensamento tem um agravante: quando a luta não resolve, e ela não resolve, porque lutar mantém o sistema dual ativo, interpretamos isso como prova de incapacidade pessoal, o que gera mais ansiedade, que gera mais luta.
Considero importante compreendermos profundamente a visão de mundo dual. O que consideramos positivo e o que consideramos negativo vistos desta forma são as duas extremidades de uma mesma corda. E esse padrão tem uma raiz biológica em nós, se tornou um hábito, um circuito antigo, herdado, que opera em uma dualidade simples: vida ou morte, ameaça ou segurança.
É importante afirmar algo aqui para não cair num engano comum: esse circuito binário não está errado quando dispara em nós de forma automática.
Tudo o que criamos, uma ideia sobre como a vida funciona, uma instituição, um número que nos mede, se torna parte real da lente que lê e descreve o mundo em que vivemos, com poder genuíno de nos afetar.
Reconhecer uma ameaça ali onde ela de fato existe é acerto, não distorção. O que falta a esse circuito específico não é precisão, é plasticidade: sozinho, ele não se transforma, não aprende a incluir o novo.
Por que perguntas podem romper padrões repetitivos?
Se validar, desqualificar ou lutar são três formas de reforçar o mesmo circuito, o que nos resta?
A resposta que encontrei, e que sustento há muito tempo em meu trabalho, é: a nossa capacidade de perguntar. Não qualquer pergunta, mas a pergunta genuína, feita a si mesmo, não apenas aos outros, ao buscador de internet ou a alguma autoridade externa.
A pergunta não é uma terceira opção dentro do binário lutar-submeter. Ela é de outra natureza. E por isso consegue interromper a dualidade em vez de apenas trocar de polo dentro dela.
Perguntar serve para outra coisa: para gerar um silêncio repentino, um vazio criativo. Para manter aberta a possibilidade de novas respostas diante de algo que, de fato, nos afeta.
O motivo disso é simples de nomear, e profundo em suas consequências: é esse vazio, essa suspensão momentânea de certeza, que trinca nossas certezas, e funciona como espaço de semeadura. É neste espaço que algo genuinamente novo pode surgir.
Aqui certezas fechadas são como a morte, encerram as possibilidades de novas respostas.
É preciso distinguir esse vazio fértil do vazio vivido como falta e repleto de raiva, um é terreno fértil e ativo, o outro é emoção estagnada.
Abandonando a ideia da pergunta certa
Outro ponto que desejo levantar aqui é nossa crença sutil e generalizada de que boas soluções surgem da busca pela pergunta que já contém uma resposta esperada. Essa é uma das formas de permanecermos presos ao jogo das certezas pois perguntas certas são circulares, exatamente como o círculo que por mais distante que vá, retorna ao próprio ponto de partida.
A pergunta viva é diferente. Ela é, por definição, incerta. Não é uma versão refinada da resposta certa. Ela não retorna ao mesmo ponto, se desloca, gera algo que não estava contido nela mesma desde o início. Se a pergunta certa fecha um círculo, a pergunta viva abre uma espiral.
Uma raiz antiga, uma prática atual
Há uma passagem conhecida na tradição ocidental, em que se fala da necessidade de nos tornarmos como crianças para acessar algo essencial em nosso desenvolvimento enquanto seres humanos.
Tradicionalmente lida como pureza moral, prefiro lê-la também como descrição de um estado cognitivo: a criança pergunta em cadeia porque seus hábitos mentais ainda não se fecharam em torno de si mesmo. Ela ainda opera por curiosidade genuína e aberta.
Nesta Inteligência Sistêmica isso significa reconquistar, de forma consciente, como adulto, essa plasticidade que como criança já tínhamos e usávamos de forma inconsciente.
A pergunta feita deliberadamente apenas recupera em nós, de forma ainda mais potente, o que antes era espontâneo.
Consciência como aquilo que podemos gerenciar
Prefiro definir consciência de um jeito operacional: consciência é aquilo que podemos gerenciar. E metacognição é a capacidade, dentro do possível, de autogestão dessa consciência.
A partir dessa definição, cada pergunta viva não é apenas uma ruptura pontual do padrão automático. É um exercício que expande nosso território gerenciável.
Cada vez que suportamos o vazio desse momento de não saber, em vez de nos apressar para fechá-lo com uma resposta pronta, esse território cresce.
Torna-se uma espiral que se expande a partir do mesmo eixo, retorna repetidamente sobre antigos padrões mas não mais da mesmo forma, com o mesmo olhar.
Se você quer treinar essa prática com mais profundidade, e não sozinha, te espero na Formação em Inteligência Sistêmica. Um espaço para sustentar perguntas vivas junto com outras pessoas que também estão aprendendo a não fechá-las cedo demais.
Um abraço,
Rosana Jotta
Rosana Jotta é facilitadora em Condições de Contorno, Inteligência Sistêmica e Educação Biossistêmica com mais de 20 anos de experiência. Arquiteta de Contornos, Pedagoga (UFU), Consteladora Sistêmica com formação pelo IMAHOM e participação em seminário com Bert Hellinger e Pólo de Cuidado em Terapia Comunitária Integrativa pela ABRATECOM. Fundadora do Instituto Rosa da Terra, facilita processos de transformação para quem busca sair de padrões repetitivos e viver com mais consciência: clareza, leveza e sucesso. Conheça seus Treinamentos, Mentorias e Atendimentos em grupo ou individuais (presenciais ou online).